
toda vez que começava uma partida de jogo da vida, eu canalizava todas minhas energias em rodar a roleta para cair no número que me levaria a ser médico.
como médico, o jogo já começava bem. meu salário seria o maior e a aposentadoria, no fim de tudo, ainda melhor. como médico, eu não precisava me preocupar com muita coisa. continuava no meu carro branco, acumulando filhos e filhas, organizando-os por gênero na parte de trás do carro. minha esposa ao meu lado.
como médico, toda a partida parecia fazer sentido. eu me sentia seguro para encarar a roleta e tudo aquilo que ela me reservava para mim.
aos poucos, a caixa do jogo da vida foi ficando cada vez mais tempo dentro do armário de brinquedos, mas a roleta continuou girando.
terminei o colégio com ótimas notas. entrei para a universidade que queria e me destaquei entre os melhores alunos. consegui estágios excelentes e propostas de trabalho antes mesmo de pegar o diploma. tudo parecia estar indo muito bem, mas um dia percebi que o jogo mal tinha começado.
tudo aquilo que eu já tinha feito equivalia apenas às primeiras casas do tabuleiro. eu era apenas um pino azul, sozinho, com centenas de casas a serem percorridas e muitas bifurcações pela frente. e não havia me tornado médico.
não me sinto seguro. muita coisa não faz sentido. não consigo prever a próxima casa e roleta continua a girar.
o que mais me assusta, no entanto, é que só tenho essa partida.
>> ska – paralamas do sucesso